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“O Guardador de Rebanhos”

Publicada por Jonas Matos |

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Alberto Caeiro
A parte IX do poema “O Guardador de Rebanhos” é das composições poéticas que mais me interesso por estranhar a estrutura do segundo verso da primeira estrofe, “O rebanho é os meus pensamentos” e, também, por achar curioso alguém ser um guardador de rebanhos que, na realidade, são pensamentos. Ser um guardador de pensamentos é uma ideia singular.
Surgiu-me, de imediato, a máxima de Descartes Cogito ergo sum – “Penso, logo existo”, em oposição à máxima criada pelo cientista português, António Damásio, “Sinto, logo existo”.
Em Alberto Caeiro, Fernando Pessoa mostra que já estava à frente do seu tempo, dado que, de uma forma indirecta, punha já em causa as teorias classicistas. Aliás, Caeiro é, na minha opinião, o mais interessante dos três heterónimos de Pessoa, ou até mesmo do próprio Pessoa, pois realça a natureza, chama a atenção para a realidade que nos é transmitida através dos nossos sentidos e vive essa realidade tal como ela é, sem juízos de valor.
Sob uma aparência de simplicidade, esta composição poética tem uma grande riqueza de conteúdo.

1 comentários:

Fábio Paulos disse...

tu viste me!?!?
a se'rio!?

ai k vergonha XD

andas la' no instituto!?!

abrcox